segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A Fome

Nas alturas em que me sinto completamente esquadrinhado pela fome, os meus olhos avistam sofregamente um autocarro e a imagem que transmitem ao cérebro é a de uma baguete com farripas de frango e rodelinhas de tomate, a escorrer molho de churrasco por todo o lado, que na realidade mais não é do que fumo decorrente do excessivo queimar de óleo da viatura, algo natural se for levado em conta que o transporte público tem ano de fabrico em 1967, apesar de ter sido comprado pela transportadora na Alemanha há apenas dois anos. A dor instala-se e é com pesar que sinto o meu intestino delgado entrar em rixas desnecessária com o estômago e com o esófago por ter o intestino grosso à perna a pedir conduto.
É por estas e por outras que me decidi a casar com alguém que fosse uma versão humanizada da Bimby, de preferência com upgrade para Dolce Gusto, pois uma cafezada depois de um pitéu agrada até à chinchila da minha cunhada que só come alface e alfalfa, mas nunca recusa um trago do néctar Campo-maiorense de preferência com um cheirinho de licor de lagarto chinês, especialmente se este for servido pelo senhor Fai Cheng, homem alto e magro de bigode farfalhudo e careca proeminente, nascido na Guiana Francesa mas leitor assíduo de Confúcio e Fernão Lopes, que muito novo emigrou para a Dinamarca, por engano, quando pretendia deslocar-se à Lapónia para entregar a sua carta de Natal aos duendes do patrono natalício. Durante a sua estadia no pais dos Vikings fundou uma fábrica de drakars onde todos os funcionários tinham como uniforme um disfarce de Vicki e apaixonou-se pela cultura sueca, sendo fervoroso amante do swing, mais a nível musical do que sexual, pois tendo ele feito um voto de castidade ainda no pais natal, sentia que lhe faltava algo para dar em troca numa situação de swing de carácter carnal. Foi ainda em terras de Sua Majestade Rainha Margarida II que se converteu ao absentismo, deixando de comparecer no local de trabalho sem aviso prévio e adoptando um nome russo, Faizulinenko Chengrinski, que rapidamente abreviou para Fai Cheng por não se recordar de como se escrevia e pronunciava o seu nome completo.
A minha saudosa mãezinha, que Deus tenha bem junto de si como tem todos os seus devotos e crentes, para compensar o facto de ela desde pequena ter nutrido uma inexplicável adoração por Satanás e pela Irmandade Illuminati ao ponto de ter tentado baptizar a minha irmã mais velha com o nome de Copernica, que foi automaticamente recusado pelo Registo Civil, livrando-se assim a mana Galileia de um nome ridículo, sempre me recomendou que escolhesse para contrair matrimónio uma freira pois dizia ela que as enclausuradas certamente tinham extraordinários dotes petiscais visto não haver noticia de Deus, a quem elas haviam prometido devoção eterna, alguma vez ter ido a um fast food amarfanhar um suculento hambúrguer ou uma mirrada fatia de pizza Primavera. A minha tia contrapunha que isso se devia ao facto do inventor de tudo não gostar de pepino nem anchovas, mas a minha saudosa mãezinha defendia a sua dama atirando à sorrelfa o argumento de que os doces conventuais gozavam de enorme fama, sendo que nenhum homem era capaz de fazer um trejeito de boca enquanto aplicava umas viris dentadas numa Barriga de Freira e não havia mulher que não soltasse um Suspiro de Braga enquanto esfacelava um Fidalguinho. Aqui o meu pai juntava as mãos e levava-as acima do seu boné da Robbialac e afirmava pleno de convicção que se havia coisa que o deixava fora de si era um Pito de Santa Luzia.
Quis o destino que eu me perdesse de amores por uma ateia agnóstica que me conquistou o coração com uma pratada de Canard à L’Orange confeccionado pela sua mãe, memórias ainda de uma comissão de serviço prestada por esta como mercenária durante a Guerra Civil no Congo Belga, onde ao serviço das tropas de Mobotu Sese Seko ajudou a derrubar o Governo de Moise Tshombe, trazendo na bagagem toda uma panóplia de receitas culinárias que durante muito tempo me deliciaram, até ao momento em que a velha me começou a ensaboar o juízo com a frequência e velocidade de um Alfa Pendular ao ponto de me ter obrigado a interna-la num lar com visitas periódicas bastante limitadas.
Para meu azar a minha excelsa esposa apenas herdou de sua mãe a vil capacidade de me atazanar o sistema nervoso, estrangulando-o até ele não respirar, desconfiando eu que os dotes culinários foram herdados pela minha cunhada visto o seu marido ser um badocha que tem a parte de baixo da cama coberta de tijolos de 15 para que esta não abata. Enquanto isso eu vou-me habituando a matar o bichinho da fome com bifes de vaca cuja substancia calórica e nutricional é a mesma de um pedaço de madeira de azinho a crepitar na lareira numa tarde de verão enquanto espera que lhe seja colocado em cima o assador para uma assadela de castanhas fora de época.

domingo, 15 de novembro de 2009

O Inicio

Normalmente os grandes negócios e as ideias fabulosas nascem de um de três fenómenos: o ócio, a insónia ou o consumo abusivo de substâncias estupefacientes, sejam eles canabinóides ou opiáceos, é preciso é que sejam narco-traficadas. Foi o facto de não ter sido atacado por nenhum destes fenómenos que me levou a escrever isto, enquanto aguardo que um relâmpago me atinja bem em cheio no osso occipital de forma a haver em mim uma erupção de criatividade e eloquência que torne qualquer destas palavras em algo mais tremendamente esfusiante e trepidante, poética e prosamente falando, ou escrevendo, conforme o ponto de vista adoptado pelo leitor desprevenido, que numa clara exibição de vida sem interesse perde tempo a ler todo um conjunto de palavras desconexas e de sentido descoordenado, revelador de um humor um tanto ou quanto a atirar para o parasitismo.
Obviamente que mesmo atingindo um nível de qualidade supremo estarei sempre abaixo de qualquer outro rascunho saído da caneta de um pilantra emigrado da Oceania que o entrega aos automobilistas parados no vermelho de um cruzamento louletano e onde se pede um donativo para uma menina loirinha que, azar dos azares, tem leucemia e precisa ser operada com muita urgência a um dedo indicador pois ao roer a unha trincou inadvertidamente o membro apontador ao ponto de criar uma pequena infecção cutânea que seria facilmente curada com um pouco de gaze e betadine, não fosse a incauta jovem ter tentado estancar a hemorragia com três pingas de uma especie de água rás, comprada no mercado do peixe, mais especificamente na banca da D. Amália, que só vende pargos e moliço, vindo directamente da Ria de Aveiro.
A verdade contudo é que o rascunho do pilantra emigrado da Oceania só seria melhor prosa aos meus olhos uma vez que aqui se aplica a teoria de que a “galinha da vizinha é sempre melhor que a minha”, que diga-se é bastante vasta e abrangente, pois pode-se inclusive aplicar a apêndices mamários. Não olvido de forma alguma que as “mamas das minhas vizinhas são bem melhores que as minhas”, apesar de neste ponto não ver a coisa com maus olhos. Gabo-me, inclusivamente em público, de ser pouco dotado ao nível da vulgarmente apelidada de prateleira, vestindo inclusive o mesmo tamanho de soutien que grandes vultos da história como Napoleão, D. Afonso Henriques, D. Nuno Álvares Pereira ou até Condoleeza Rice. Reza até a história de que a decisão do nosso primeiro Rei em esbofetear a progenitora e expulsá-la do território Portucalense se devia exactamente ao volume descomunal dos tecidos adiposos que D. Teresa exibia na zona confinada entre o pescoço e o umbigo, sendo este relatado, por alguns historiadores como sendo o primeiro caso de cirurgia plástica praticada no Mundo. Outros historiadores, especialmente de origem Al-Andaluza, contudo referem-se a este caso como uma situação típica de mutantismo, que deixou de olhos em bico Egas Moniz ao ponto de poder ser este o pai biológico do Conquistador.
De um ponto de vista mais sociopático a assumpção de que isto não seria mais que uma perda de tempo obteve uma muito aplaudida confirmação quando a mulher que tem uma aliança igual à minha me pediu para passear o caniche, mesmo apesar de lá fora chover mais do que na nossa banheira e eu ter respondido que não podia pois estava absolutamente ocupado a trabalhar. O desvio da verdade obviamente não pegou, pois ela vivendo 24 horas comigo sabia perfeitamente que estava a falar com a inscrição numero 12876 do Centro de Emprego, que coleccionava entrevistas falhadas de trabalho, por estes não serem empregos. Desta forma não houve como evitar o estrelaico e o passeio com o canídeo teve-se de fazer, mas graças ao teclamento de letras sempre consegui ganhar uns minutos extra, suficientes para presenciar o amainar da pluviosidade, o que contudo não evitou que tivesse que vestir o fato de oleado amarelo e as galochas que haviam sido propriedade do meu sogro, homem de 1,50m de altura com consequente pé pequeno, cerca de três números abaixo dos meus. Felizmente ao longo da evolução humana os dedos dos pés foram ganhando articulações de forma a poderem dobrar em situações de evidente aperto, sendo que o velho truque de não usar peúgas também ajudou, apesar dos efeitos olfactivos altamente danosos revelados no momento de descalçar o botim.
De qualquer forma esta breve interrupção da escrita para passeio nocturno com o quase animal da minha esposa não foi feito de animo leve e deveu-se a uma mais que necessária diminuição e controle de riscos visto que caso o defecamento do bicho fosse feito intramuros iríamos assistir a uma desnecessária explosão de adrenalina por parte da rapariga, afectando-me sobremaneira o aparelho auditivo. Sendo este um dos poucos sentidos que mantenho intacto, convém-me, com toda a certeza, preserva-lo.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Dia

Começou-me mal o dia e quando assim é, só me resta esperar pelo pôr do sol para voltar a arrastar os costados até à cama e espojá-los nos ácaros que habitam os lençóis coçados e desbotados que me cobrem o colchão matrimonial.
Tudo começou ao acordar, momento em que fui surpreendido por dois despertadores tão sintonizados como aquelas miúdas, que, quais avestruzes aquáticas, afundam a cabeça na piscina e fazem figuras geométricas com as suas bem torneadas pernas, cuja utilidade só é comparável à dos tampos das jantes nos automóveis, pois exibem grande beleza visual mas se lá não estivessem o veiculo movia-se com a mesma eficácia, para além das energias que consomem a quem as tenta descolar  para mudar a roda após um inoportuno furo durante uma noite de tempestade biblica. Como agravante, a minha fiel esposa, num assomo de stand-up comedy obtuso, esconso e com foros de surrealismo Monty Pytoniano esforçava os seus alvéolos pulmonares no banho numa triste tentativa de interpretar a “Nikita” do Elton John com a voz esganiçada e desafinada de um chimpanzé enquanto cata piolhos a outro ser da mesma espécie na copa de um Baobá na tropical savana africana.
Senti que a única forma de fugir à tormenta que se tinha abatido sobre a caravela a que chamo “minha vida” era virar à esquerda na primeira almofada e retirar-me estrategicamente para fora do quarto, qual Jesus que após oferecer a outra face à mão estalajadeira, sente a impotência de ter nascido com apenas duas bochechas e tenta evitar a palmada repressora de um qualquer José carpinteiro na nádega marcada pelo tampo da sanita onde horas antes esvaziara uma intoxicação alimentar derivada de uma sandes de presunto mal fumado, sem puxar o autoclismo.
A fim de me vestir, agarrei numa peúga e tentei calça-la. Debalde, senti um baque tal que pensei que o baço e o fígado tinham trocado de lugar como se estivessem a jogar alegremente ao elástico no recreio da escola primária, entre um gole de iogurte liquido e uma baforadela num cigarro de chocolate às escondidas. Ao retirar a peúga reparei que esta, devido à rigidez resultante de utilização ininterrupta ao longo das últimas duas semanas, me tinha esfolado o joanete. Como medida preventiva decidi-me a despir também as cuecas, às quais tanto me tinha afeiçoado no último mês pelos serviços tão competentemente prestados, por recear que estas pudessem agredir-me nas partes pudibundas cuja pele não está tão calejada e portanto mais frágil e sensível ao toque do que a dos membros inferiores, mais habituada ao contacto físico com a tijoleira Santa Catarina, aveludada pelos pêlos do caniche, da habitação de três assoalhadas que divido com a minha esposa, desde que ela aceitou ser minha consorte.
Batida com estrondo a porta de casa vi-me impossibilitado de utilizar o elevador pois a porteira havia sintonizado a aparelhagem que fornece a musica ambiente ao habitáculo móvel na Rádio Celtibera de cujo posto emissor zurravam as gaitas de foles dos “Viri & Athus”, banda originária do Huambo, mas radicada em Alcongosta e que defende a nacionalidade angolana do grande guerreiro Lusitano. Desprovido de todo e qualquer sentimento de índole sado masoquista, vi-me obrigado a alcançar o rés do chão através do vão de escadas do prédio, onde os interruptores eléctricos mais não serviam do que para reter impressões digitais e epiteliais daqueles que tentavam, sem sucesso iluminar os candeeiros que tão habilmente decoravam o tecto do fosso das escadas.
Em três penadas pus-me a caminho do café da Ti Marquinhas, onde tinha marcada uma entrevista de trabalho com Crisanto Filomeno, director-jornalista-gráfico-ardina do jornal “Voz de Vós”, que me queria oferecer metade de um ordenado mínimo do Botswana para eu tomar as rédeas do Jornal bem como ficar responsável pela coluna “A Cozinha e os Detergentes da Loiça”, tendo a meu cargo a detecção de todo e qualquer furo jornalístico dentro do nicho de mercado que são os detergentes domésticos, com particular incidência aos utilizados nos lava loiças e máquinas de lavar loiça do país. Seria igualmente responsável pela redacção na ausência de Crisanto, o que iria suceder já a partir desse momento pois ele preparava-se para emigrar para as Ilhas Tonga onde iria trabalhar como jardineiro no parlamento local, bem como por toda a parte gráfica, de edição e distribuição deste semanário trimestral que saíra para as bancas uma vez nos último sete anos.
A verdade é que toda a eloquência que ele revelara ao telefone e que me havia convencido a aceitar o emprego se esvaiu quando entrei no salão do café e ouvi um sonoro arroto de creme de cebolada ecoar da mesa onde Crisanto me aguardava vestido só com umas ceroulas rotas junto ao joelho esquerdo e um cachecol de lantejoulas a tapar-lhe os mamilos, que, saltava à vista, não seria dele mas talvez de sua esposa, pois esta jazia deitada de bruços no chão, despida da cintura para cima, apenas com uma garrafa de Palinka na mão. Naquele momento decidi que este ainda não seria o emprego para mim e que o melhor era dirigir-me a outro estabelecimento de restauração, pedir uma mini e um pratinho de tremoços e aguardar que o dia passasse, porque realmente a coisa não estava a correr nada bem.

quarta-feira, 25 de março de 2009

O Puto

Ya, do se bem, alte fixe bacaninho e coiso e tal...cada vez entendo menos o filho dos meus vizinhos do 4º andar. O arremelgado do catraio não atina três letras sem fazer da língua portuguesa uma mulher de 80 anos com botox no nariz, ou seja, uma coisa tremendamente feia e a precisar de papel mata borrão ou de uma dispensa escura.
Quem o vê agora tem que encontrar semelhanças extremas com uma catatua dos confins da selva Amazónica, mais para o lado guarani que charrua, que é como quem diz mais Paraguaio que Uruguaio. Aliás a forma como ele desintegra o dicionário português só é comparável a um nativo do Brasil sertanejo a tentar esmiuçar o sistema informático de um aparelho de ar condicionado debaixo de uma soalheira tórrida de 45 graus, tendo ao seu lado um guarda sol aberto mas que se recusa a utilizar.
É nestes momentos que a lógica não passa de um contentor do lixo a arder numa rua de Atenas ou de Paris durante um tumulto estudantil, tendo estampado um autocolante que diz “Cocktail Molotov Mata”, numa clara alusão às quiló-calorias presentes numa fatia do famoso doce esponjoso e peganhento e que só perde em número de fãs para o terrivelmente manhoso doce da casa, pois ninguém resiste a tentar saber a marca da bolacha que está no fundo da taça e como diz o ditado popular “a curiosidade matou a fome”, mesmo sabendo que qualquer gato gostaria de ter um ditado popular só para si.
Pior do que presenciar a coisa é começar a reconhecer-lhe tanto dejá-vu que pensamos que das duas uma: ou estamos a ficar loucos ou então molhar camarão tigre em leite com chocolate é algo tão natural como atirarmo-nos de um arranha-céus e cairmos de cara no chão, só porque temos manteiga no canto da boca, porque não há física que consiga contrariar a Lei de Murphy.
O lado triste deste filme de produção manhosó-nacional é ver que a recuperação do jovem está seriamente comprometida por obra e graça do macho progenitor, verdadeiro pintas da cena alfacinha, saído directamente de um qualquer bas-fond oitentista em cujo escuro espaço regurgitou pelo nariz, durante anos, o fumo impregnado de nicotina que exalava pela boca, na esperança de que o seu farfalhudo bigode filtrasse as toxinas que anos mais tarde lhe causaram graves problemas bronco-respiratórios, pois produz tanto ruído no processo de inspiração/expiração que é uma bronca conseguir dormir no raio do prédio ao mesmo tempo que o homo de neerdental do 4º andar deita a careca coçada na fronha encardida da almofada.
Este exemplar acabado da estupidez pós revolucionária que trata a esposa por Delfina apesar de estar casado há mais de 30 anos com ela e no acto do matrimónio ter aceitado casar com a sra. Josefina Magalhães, afinal de contas verdadeiro nome da infeliz consumidora crónica de barbitúricos, é um fã incondicional das conversas apatetadas da cria de ambos, exibindo o cacarejar do pirralho aos amigos como quem exibe uma aguardente melosa de Monchique a três jovens que apenas tentam fazer o seu trabalho.
A minha insistência para que as visitas desta dupla de três múmias sejam cada vez mais esporádicas esbarra sempre no bestial ensopado de borrego que a minha esposa insiste em oferecer antes das reuniões de condomínio, ás quais por incrível que possa parecer, todos os habitantes deste prédio outrora devoluto comparecem em massa, fazendo do nosso humilde lar um autêntico centro de congressos, ao qual só falta a disposição do set up em teatro ou cabaret, apesar das longas pernas e curtas minisaias da vizinha do 1º andar darem um certo ar de cabaret ao ajuntamento.

sábado, 31 de janeiro de 2009

O Judeu

“Ich Tino num tá cheirando bein aqui não”... foi com estas singelas palavras que Carciano me informou que havia gaseado novamente a atmosfera com sulfato de feijão com arroz de 3 dias, re-aquecido na fogueira que flamejava lá embaixo no bidão junto à betoneira. Dito isto no topo de um andaime que dá para o 23º andar de um prédio em construção, onde não há escapatória possível, só me resta esperar que o anticiclone estacionado a meio do Atlântico se dirija para junto de nós e leve o metano expelido pelos intestinos brasileiros sentados a meu lado para bem longe, antes que danifique o reboco acabado de chapar no tijolo virgem.
Embrenhado neste caos olfactivo de índole flatuleica, esqueci-me de ir recolher o saco com a roupa interior da minha sogra que a minha excelsa esposa havia deixado na lavandaria do sr. Itzhak Stern, há cerca de 3 semanas para limpar os ácaros incrustados por utilização abusiva do mesmo vestuário.
Quando me decidi a descer até solo firme e ir ao encontro do “judeu” como pomposamente era chamado o sr. Stern por todos os seus vizinhos de extrema direita, já passava das 17h00, pelo que foi sem colocar o capacete, cotoveleiras e joelheiras que me sentei no meu monociclo e pedalei desenfreadamente estrada molhada abaixo. Não fora uma pequena barricada de pneus a arder, colocada no meio da estrada pelo grupo pacifista “Recém Mamãs Zen” e não teria sido obrigado a pedir o estojo de primeiros socorros assim que cheguei à lavandaria, para desinfectar as feridas que pululavam as minhas articulações superiores e inferiores. Na cabeça estava ileso, pois pelos vistos dar à luz afecta a capacidade motora de acertar com pedras em alvos em movimento.
Quando pedi a minha encomenda fui surpreendido com a informação de que a roupa não havia sido lavada e que naquela lavandaria nunca o seria, pois tratavam-se de vestimentas indignas para uma senhora. Nesta altura convém referir que a imponente figura que se prostrava à minha frente era um indivíduo nascido há 82 anos como Wolfgang Schneitz numa Clinica de Abortos de Nuremberga, tendo logo ali originado uma queixa no Livro de Reclamações por parte da mãe-que-não-queria-ser e havia pertencido às SS Nazis, tendo sido destacado para o Campo de Concentração de Birkenau. Com o final da Guerra converteu-se ao islamismo e refugiou-se na Palestina, de onde lançava amiúde ataques terroristas contra oficinas de carpintaria luzemburguesas em Haifa. No último desses ataques vestiu-se de coelhinho da Páscoa e dirigiu-se a uma loja de frutas tropicais, na esperança que alguém lhe apertasse o pompom que camuflava o rabo do coelho e despoletasse o engenho explosivo que trazia à cintura. O aperto chegou pela mão de um jovem moreno de 54 anos, mas a única explosão que se deu foi a do amor. Rapidamente se converteu ao judaismo e ao homossexualismo, emigrando então para Lisboa e estabelecendo-se no Martim Moniz, como profissional da lavagem de vestuário a seco ou molhado, não perdendo no entanto o seu espirito conservador, o mesmo que o impedia de aceitar trabalhos que chocassem com a sua vertente mais púdica.
Da minha parte fui obrigado a aceitar a renitência do “judeu” para com as roupas que estavam dentro do saco, especialmente no wonderbra e na cueca fio dental de tamanho avassalador, suficiente para a Inquisição enforcar 3 hereges e ainda atar ao poste da fogueira mais 2 bruxas. As meias de ligas estavam laças o que denotava uma utilização assustadoramente habitual, para uma senhora de 98 anos internada num Lar. Num ápice coloquei tudo dentro do saco e disse para o meu interlocutor incinerar aquilo tudo. O brilhozinho nos seus olhos ao ouvir a palavra “incinerar” mostrou que ainda havia algo de nazi naquele judeu.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A Memória

Ah catano, ele há coisa que um tipo nunca mais esquece, outras pelo contrário nunca mais nos lembramos e desaparecem da memória como pílulas do dia seguinte por alturas de Semana Académica..
Até parece que foi ontem que fui atingido pelas ondas de choque emitidas pela minha mãe lá da varanda onde pendurava as ceroulas do meu velho na corda para evaporarem as humidades e cheiros de uma lavagem com água e sabão azul: “ahh bicho dum camano. ‘Stantino, vai-te-me masé à loja dos cabedais comprar uma coleira pró raistaparta do gato da tua irmã que ele já se me foi às nêsperas outra vez”, pigarreou ela. Sem pensar duas vezes lá me dirigi à loja onde o ti’ Marques Choco, entre umas valentes goladas de aguardente de medronho caseira feita à base de coirato fumado, inspirava diariamente cheiro a bedum e sebo, que aplicava cuidadosamente nas botas de cabedal enquanto a sua mente divagava pelas coxas da senhora Erminia, cujo marido havia falecido 5 anos antes, após uma reacção alérgica a um tremoço, enquanto ouvia o relato de um jogo de 3 em Linha na telefonia, segundo conta a viúva. Quando saltei o portão emperrado de ferrugem do nosso minúsculo latifúndio onde a erva daninha se desenvolvia como míldio nas batatas, estes pensamentos emaranhavam-se na minha cabeça com a chave do Totobola onde me inclinava para apostar numa tripla 1X2 para o jogo em que o Aberystwyth recebia no seu estádio o Caernarfon na 20ª jornada do Campeonato Galês.
Ao aproximar-me do edifício onde o ti’ Marques Choco tinha estabelecido o seu meio de subsistência dei de caras com um cenário algo estranho, aliás, completamente surrealista, pois um grande cartaz exposto na galera de um camião Tir anunciava uma exposição com pinturas de Salvador Dali e René Margritte a decorrer nas carrinhas cor de tijolo da Biblioteca Itinerante, portanto só acessível a quem tivesse cartão de sócio das Bibliotecas Calouste Gulbenkian. Na rua uma sonora manifestação juntava de um lado da barricada a ILGA e a Sociedade Portuguesa de Sado-Masoquismo e do outro a Liga Portuguesa dos Animais, cujos elementos tapavam as vergonhas com alfaces e papo-secos, enquanto vociferavam palavras de ordem contra o uso de peles na produção das vestes de Drag Queens e de roupas bondage. À porta do seu estabelecimento comercial ti Marques Choco não poupava nos apupos aos “alfaces”, acusando-os de serem maus para o negócio, o que lhe viria a custar mais tarde duas vitrinas estilhaçadas no pavimento de calçada típica portuguesa e umas calças de cabedal, roubadas por um dos defensores dos animais, após ter perdido a sua alface numa acesa disputa com uma chinchila fugida de sua dona e esfomeada.O espanto perante tal cenário foi tal que a minha memória bloqueou, pelo que se me varreu da ideia o propósito da minha visita aquele local e regressei a casa sem a famigerada coleira para gatos que me havia pedido a minha mãe. Na altura não me pareceu um esquecimento grave e revelava-se bastante útil para mim, pois com o gato à solta podia continuar a devorar a meu bel prazer a nêsperas que povoavam a única árvore do quintal, cuja copa esvoaçava bem junto à janela do meu quarto, com a mesma densidade populacional de Shangai.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

As Perguntas

Pergunta – Mas porque raio é que há pessoas que mandam tantos perdigotos quando estão a falar que os seus interlocutores pensam que estão na selva Amazónica em dia de tempestade tropical?
Resposta – Bom esse fenómeno é originado por outro que se denomina “Ciclo Hidrológico ou da Água”. Quando está muito calor a água evapora, quando a temperatura baixa a água liquidifica. Assim uma pessoa quando está com febre evapora água na boca e quando baixa a temperatura corporal assiste-se à liquidificação da água e ao chamado “perdigoto”. Portanto nunca se deve falar com uma pessoa que tenha estado com febre há menos de 3 semanas, a não ser que se leve um fato de oleado e óculos de mergulho.
Pergunta – Porque é que as senhoras quando põem a roupa a lavar a separam por cores assim mais ou menos como se estivessem a jogar ao Quatro em Linha?
Resposta – É um engano. A roupa não é separada por cores mas sim por “locais”. Quando se põe a máquina a lavar deve-se ter o cuidado de juntar peças de roupa que sejam utilizadas em locais do corpo com a mesma propensão para se sujarem. Assim no Verão devem-se pôr as peúgas que estiveram nos pés a lavar juntamente com a t-shirt que tocou os sovacos. De Inverno o acompanhamento das peúgas devem ser as calçar, pois estas podem ter tocado lama. Em ambas as temporadas a cuecas e boxers devem ser lavadas à parte pois têm um nivel de propensão à sujidade bastante mais elevado que todas as outras peças de roupa. De qualquer forma deve-se ter o cuidado de não misturar cores dentro do tambor da máquina a fim de evitar tingimentos. É por isso que tenho umas peúgas cor de rosa, para poder lava-las juntamente com as calças no Inverno.
Pergunta – Se os jogadores que rematam com o pé direito são destros e os que utilizam o pé esquerdo são canhotos, porque é que os que usam os dois pés de igual forma dão ambidestros e não ambicanhotos?
Resposta – Um jogador que utiliza os dois pés com a mesma eficiência não é ambidestro, é destronhoto. Ambidestro é um jogador que nasce com uma doença congénita que dá origem a que na extremidade inferior de ambas as pernas cresçam pés direitos, ou seja, com o dedo grande do lado esquerdo. Ainda não é conhecida cura para esta doença, mas normalmente resolve-se este problema com amputação do pé da perna esquerda e utilização de prótese. Diversos jogadores do Sporting sofrem deste drama. Ambicanhoto não existe meu palerma.
Pergunta – O que é a Teoria da Relatividade descoberta pelo descabelado e abandalhado cientista Albert Einstein?
Resposta – Bom como o próprio nome indica, a Teoria da Relatividade é muito relativa, muito subjectiva. Esta prova que tudo na vida tem várias interpretações, é tudo muito relativo. Por exemplo a minha cara metade adora a minha sogra, eu pelo contrário atinjo o topo dos meus níveis de felicidade assim que ela volta para o retiro obrigatório do Lar. Por outro lado todo o Mundo pensa que o Einstein era um despenteado crónico mas ele sempre achou que fazia grande sucesso entre as senhoras por ser adepto do desgrenhamento capilar.
Pergunta – Porque é que o nosso cabelo nunca pára de crescer sendo que ás vezes de tão grande no humilha por parecermos palmeiras?
Resposta – O nosso cabelo é um veiculo de contacto social, é o que faz do Ser Humano um animal social, obrigando-nos a ir onde mais e melhor se contacta com as pessoas, onde há verdadieras discussões e onde se tratam temas importantes para a evolução da Sociedade, ao Barbeiro. Este hábito vem do tempo dos Gregos que foram o primeiro povo a dirigir-se ao barbeiro para cortar o cabelo e discutir os temas do dia a dia. Em Grego Antigo barbeiro diz-se “Acrópole”.
Pergunta – Existem extra terrestres noutros planetas ou isso não passa de invenção dos Humanos que já não têm mais nenhum animal para domesticar?
Resposta – Sem dúvida que existem extra terrestres e todos eles são extremamente inteligentes. A maior prova de que há seres inteligentes noutros planetas é que eles nunca tentaram estabelecer contacto connosco e os relatos de pessoas que dizem que viram OVNIS só afastam cada vez mais todo e qualquer resquicio de vontade que os extra terrestes poderiam ter de contactar connosco.
Pergunta – Porque é que tenho que ser sempre eu a pôr e levantar a mesa quando está tanta gente cá em casa?
Resposta – Porque és o mais pequeno, estás em processo de aprendizagem, tens que treinar estes pequenos aspectos da vida para quando fores mais velho os fazeres com total destreza e porque a tua tia me está a pedir a mim para o fazer e eu te estou a mandar a ti porque não me apetece levantar do sofá. Pisga-te, fecha a porta da sala e desliga a luz.
É por estas e por outras que me chateia que o meu sobrinho venha cá a casa. O miúdo sofre de uma estirpe de ignorância nunca antes estudada que chega a atingir niveis quase psicanaliticos, bombardeando-me com perguntas complexas mas que são pêra doce para um adulto como eu. Só me chateia é que os meus cunhados não ensinem nada ao catraio, obrigando-me a fazer uma pausa no meu Puzzle Bubble para elucidar o raio do puto de todas as suas dúvidas existenciais. Se não fosse eu certamente que o miúdo neste momento apenas tinha o conhecimento cientifico de um peixe.